O bioma mais antigo do país é também a savana mais rica do mundo, mesmo que ainda seja um lugar desconhecido para muita gente. A falta de atenção para o Cerrado tem permitido um avanço brutal do agronegócio, desmatando mais de 1 milhão de km2 de sua extensão e colocando em risco a vida de vários animais e de povos nativos. Mas por que será que pouco se fala nisso?
Vamos do princípio. Pesquisas mostram que o Cerrado existe há cerca de 65 milhões de anos, podendo ser considerado o bioma ancião do nosso país. Sua exuberância não está tão disponível aos olhos, já que aproximadamente 70% de sua biomassa está concentrada embaixo da terra com raízes longuíssimas – o que lhe deu o título de floresta invertida. O Cerrado está localizado no coração do Brasil, conecta três países da América do Sul e funciona como um elo entre quatro dos cinco biomas do nosso país.
Em seu território se encontram as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata. Abriga cerca de 12.070 espécies de plantas nativas catalogadas, das quais 4.208 são endêmicas – só há ocorrência na região. Some ainda, 251 espécies de mamíferos, 856 de aves, 262 de répteis e 800 de peixes. Os números expressivos fizeram da região o principal hotspot no Hemisfério Ocidental, cobrindo mais de 2 milhões de km² do Brasil e detendo 30% da biodiversidade do Brasil.

Pois toda essa riqueza sem precedentes para a (sobrevivência da) humanidade está em risco constante. Sem ganhar os mesmos holofotes devidos que a Floresta Amazônica, mais de 1 milhão de km2 do Cerrado já foi desmatado para que o agronegócio prosperasse.
Curiosamente, a Constituição Federal ignorou o bioma no parágrafo quarto do artigo 225, que trata dos patrimônios nacionais. Há mais de 20 anos há propostas de emenda constitucionais para reparar tal deslize, porém nada foi efetivado. Nem mesmo o Código Florestal, atualizado em 2012, contribuiu para minimizar os impactos nocivos do desmatamento na região.
Cerrado Desmatado pelo Agronegócio 1 | Crédito: Melissa Maurer Cerrado Desmatado pelo Agronegócio 2 | Crédito: Melissa Maurer
Mas quem ganha com isso?
Enquanto o Cerrado vai sendo devastado, o agronegócio segue a galopes onde outrora havia tanta biodiversidade. Enquanto as leis jogam contra a preservação da vida, a região contribui com quase 50% das commodities produzidas no país. Saem os lobos-guaras, as onças-pintadas e os tamanduás-bandeiras, entram o algodão, o sorgo, a soja, o milho e a cana-de-açúcar – em sua maioria transgênicos -, além da carne oriunda do gado.
Some à conta dos animais em extinção mais alguns muitos prejuízos devastadores, como a destruição das matas nativas, a emissão de gases de efeito estufa, a contaminação do solo, a alteração do ciclo hidrológico, o aumento da temperatura e mudança climática, entre outros. Uma lógica reversa que condena a nossa própria existência nesse planeta. Porém, mesmo com os diagnósticos evidentes, seguimos sonegando os desastres que nós mesmos causamos ao meio ambiente.
Um sopro de vida
Enquanto nosso sistema insiste em priorizar o dinheiro à vida, indivíduos e instituições somam forças para reverter o quadro encontrando meios de recuperar o Cerrado replantando suas espécies nativas. A Associação Cerrado de Pé, por exemplo, reúne 80 famílias de coletores de sementes nativas da região das comunidades do entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. O trabalho da associação já ajudou a restaurar mais de 100 hectares do Parque.

O projeto tem grande impacto ambiental e social, já que gera renda para as famílias locais de povos nativos – como quilombolas, indígenas, ribeirinhas e babaçueiras. São essas pessoas, inclusive, que detém boa parte do conhecimento tradicional do uso das mais de 220 plantas de uso medicinal da região, serem guardiãs desse ecossistema além, é claro, de serem parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro.
Como fazer sua parte na preservação do Cerrado
Para facilitar a sua vida e te ajudar a assumir responsabilidade nessa bagunça, fizemos aqui uma lista de como você pode ajudar a manter o Cerrado em pé:
- Voluntariar-se em alguma ONG ou instituição e vir a campo. Ainda, oferecer seus talentos para propagar o trabalho que fazem;
- Doar fundos para campanhas sérias que estão realmente dispostas a preservar esse bioma;
- Evitar o consumo de alimentos oriundos de cadeias insustentáveis que causem danos sociais e ambientais;
- Escolher não comer carne e alimentos transgênicos;
- Praticar o turismo sustentável nas regiões que abrigam o Cerrado ajudando a economia local;
- Conhecer e ajudar iniciativas de povos nativos, dando força para que essa cultura se mantenha viva;
- Falar sobre isso com seus amigos e familiares, conscientizando outras pessoas sobre a emergência ambiental que vivemos.
Com infos de: Revista Darcy, WWF, CEPFCerrado e Revista Pesquisa Fapes.










1 - Comentário
Nasci no cerrado do Norte de Minas Gerais.
Amo o cerrado!