Especialistas apontam para amamentação até pelo menos 2 anos de idade e escolha de alimentos in natura como escolhas para alimentação saudável infantil. Ainda, deflagram rótulos da indústria alimentícia com ingredientes nocivos às crianças. Mas como adaptar as necessidades à rotina da família? Não há regras, mas sim, caminhos possíveis.
Assunto cada vez mais em pauta, a alimentação saudável infantil tem levantado uma série de discussões e diretrizes que buscam uma boa educação alimentar desde a primeira infância. O aumento extremamente acelerado de casos de obesidade no Brasil e no mundo, entre outras tantas doenças físicas e psicológicas acarretadas por maus hábitos alimentares, são alguns dos motivos que levam a questão ao topo da lista de preocupações da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Parece que ainda não aprendemos a comer. Porém, se quisermos manter nossa saúde em dia, criar filhos conscientes e dar um basta na falta de escrúpulos da indústria alimentícia, vamos ter que fazer um esforço e assumir responsabilidade pelo que colocamos na boca. Nas nossas e nas das nossas crianças.
O que é alimentação saudável infantil
Segundo a pediatra Helena Waldner, a “alimentação saudável infantil é aquela capaz de suprir as necessidades biológicas da criança sem intoxicar seu corpo”. Para que não haja dúvidas, ela pontua o que entende como essencial na alimentação saudável infantil:

A alimentação precisa atender às necessidades calóricas, proteicas e de outros macro e micro nutrientes do corpo. Isso muda a cada fase da vida. Além disso, a alimentação saudável infantil consiste na escolha de ingredientes que não agridam o corpo. Ou seja, alimentos sem agrotóxicos, em porções adequadas e não excessivas, e a escolha de produtos que sejam realmente digeríveis pelo corpo. Tudo isso deve ser levado em conta
Helena Waldner
Os 12 passos rumo a alimentação saudável infantil
Para ajudar pais, tutores e educadores, o Ministério da Saúde publicou, ano passado, o novo Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, baseado em diretrizes da OMS.
A versão atual foi escrita em uma linguagem mais acessível e inclui tópicos que vão além dos cuidados com a comida em si. Há, por exemplo, espaço para os direitos relacionados à nutrição infantil e o conceito da refeição como um momento de experiências positivas. Dicas de culinária (inclusive para pais vegetarianos) também integram a diretriz. A medida visa antes tudo, trazer mais consciência, e também ajudar a prevenir a obesidade no Brasil descartando a alimentação não saudável.
“Esse é um trabalho construído por inúmeras mãos em prol da saúde das crianças brasileiras. O guia não só aponta o caminho a ser seguido, como mostra o que devemos mudar na alimentação infantil”, afirma o ministro Luiz Henrique Mandetta, em comunicado à imprensa.
Como parte do documento, há uma lista de 12 passos rumo a alimentação saudável infantil. Confira:
- Ofereça somente leite materno até os 6 meses (sem qualquer outro tipo de alimento) e permaneça amamentando pelo menos até 2 anos de idade;
- A partir do sexto mês de vida, já dá para consumir alimentos in natura ou minimamente processados (tente evitar!) — mantendo o leite da mãe, claro;
- Quando o pequeno começar a ingerir líquidos, dê preferência para água em vez de sucos, refrigerantes e outras bebida açucaradas;
- Quando for o momento de dar comida sólida, não bata no liquidificador nem peneire. Vegetais mais duros podem ser picados ou amassados com o garfo. Ao longo dos meses, utilize menos esses recursos até que a criança passe a engolir os alimentos com a mesma consistência que o resto da família;

- Não oferte açúcar nem produtos com a substância antes dos 2 anos;
- Também não disponibilize ultraprocessados (achocolatados, biscoitos recheados, salgadinho, macarrão instantâneo) para os menores de 2 anos;
- Prepare os mesmos pratos para toda a família. Essa é uma forma de melhorar a saúde da casa inteira;
- A refeição precisa ser um momento de experiências positivas, aprendizado e afeto junto da família. O ideal é todos comerem juntos;
- Dê atenção para o baixinho e converse com ele à mesa. Estimule-o a comer, mas sem forçar;
- Cuide da higiene em todas as etapas: lave as mãos antes e depois de preparar e dar as refeições, limpe as frutas e verduras, cozinhe as carnes até não sobrar partes cruas e guarde o que sobrar na geladeira;
- Quando estiver fora de casa, mantenha uma alimentação adequada e nutritiva;
- Proteja a molecada da publicidade de tranqueiras, que estão presentes em televisão, internet, jogos eletrônicos e mesmo no mercado.
Clique aqui para baixar o documento completo.
O aleitamento materno como parte vital da alimentação saudável infantil
Outro ponto abordado pelo manual com bastante ênfase é a importância da amamentação exclusiva até os 6 meses de idade. Segundo o órgão governamental, dois em cada três bebês menores de 6 meses já recebem outro tipo de leite, principalmente o de vaca, que é frequentemente misturado a algum tipo de farinha ou açúcar. Além disso, somente uma em cada três crianças continua sendo amamentada até os 2 anos de idade.
Segundo Fernanda Monteiro, coordenadora das Ações de Aleitamento Materno do Ministério da Saúde, “os benefícios de amamentar até os seis meses são muitos, tanto para a criança quanto para a mãe. E estamos descobrindo ganhos ainda mais duradouros que se refletem ao longo de toda a vida”.

A indicação do Ministério da Saúde é de que o aleitamento materno reduz em 13% a mortalidade até os cinco anos. Além disso, evita diarreia e infecções respiratórias, diminui o risco de alergias, diabetes, colesterol alto e hipertensão, leva a uma melhor nutrição e reduz a chance de obesidade no Brasil. Em termos psicológicos, o ato promove o vínculo afetivo entre a mãe e o bebê, trazendo segurança à criança.
E quando não há leite materno?
São indiscutíveis os benefícios da amamentação e a necessidade da criança em receber o leite materno. Porém, há diversos casos em que isso não pode acontecer, seja por conta de doenças da mãe, falta de produção de leite ou mesmo, porque o bebê tem dificuldade de sucção. Em situações assim, há que se encontrar soluções alternativas, como as formas lácteas ou os bancos de leite humano e, em muitos casos, cuidar da culpa que a mãe possa vir a sentir.
Segundo a doutora Helena, é muito comum perceber no olhar das mães que não conseguem amamentar seus filhos, uma grande tristeza. “O ideal é que o bebê receba apenas o leite materno até os seis meses de vida, sem água, chazinho ou qualquer outra coisa. Mas a realidade pode ser outra e existem muitos casos em que a amamentação não pode ocorrer. As mães que não conseguem amamentar seus filhos se sentem muito cobradas, o que pode afetar ainda mais na produção do leite. Essa é uma questão para se olhar com muito carinho”.
Realidade X Expectativa na alimentação saudável infantil

Essa pode ser apenas uma entre as tantas expectativas frustradas na hora de adotar uma alimentação saudável infantil. Por isso, talvez o “certo” seja fazer o possível ao invés de esperar a perfeição. É o que nos contou a arquiteta Camila Sue sobre sua experiência com seu filho Heitor.
“Influenciada por uma amiga, decidi estudar a alimentação Baby-ledWeaning (Desmame Guiado pelo Bebê ou apenas BLW), em que os bebês comem, desde os 6 meses, pedacinhos de comida com as próprias mãos. “Quando li achei incrível, mas na hora de colocar em ação tive diversas dificuldades. Foi um processo de adaptação meu, dele e do meu marido, até que encontramos o caminho certo para nossa família, em que 80% da alimentação seguiam os preceitos da BLW e os outros 20% fugiam a regra”.
Não dar comida na boca do bebê é um caminho para a alimentação saudável infantil?
A agente de saúde britânica Gill Rapley, autora do livro Baby-led Weaning: Helping Your Baby to Love Good Food (em tradução livre, Desmame Guiado pelo Bebê: Ajudando seu Filho a Amar a Boa Comida), deu nome a uma opção de como guiar a o desmame.
A ideia principal é deixar que o bebê faça as refeições com a família e coma o mesmo alimento que os adultos. Os pais colocam os alimentos cortados ao alcance e eles escolhem quando e como levar os pedaços à boca.
Camila Sue diz que ler o livro foi essencial para ela entender uma série de coisas sobre a relação da criança com a comida. “Percebi que de nada adiantava eu bater vários legumes em uma papinha, se meu filho não poderia identificar o sabor, textura e aparência de cada alimento depois. Ou seja, quando tirasse a papinha, teria que passar por mais uma transição alimentar, onde ele iria conhecer os alimentos em pedaços”.

Porém, foi na obra da culinarista Rita Lobo (o livro Comida de Bebê – Uma Introdução à Comida de Verdade) que encontrou ainda mais respaldo para adequar o que queria a sua própria rotina e realidade.
“Como nunca gostei de cozinhar, poder seguir esse caminhou facilitou minha vida, já que dava ao Heitor o mesmo que preparava para mim, só que sem sal. Além disso, temos o hábito de comer muito na rua, o que foi outro ponto a favor. Podíamos sair para comer fora sem precisar levar “a comida do Heitor”, já que daríamos a ele os mesmos legumes que pediríamos para nós”.
Mas funciona com todo mundo?
Dessa forma, como já dissemos, nem toda expectativa se traduz em realidade. Segundo a pediatra Helena Waldner, que costuma falar sobre os benefícios desse tipo de alimentação para seus pacientes, esse nem sempre é o melhor caminho.
“A relação da criança com a comida abre um leque muito vasto. A BLW, por exemplo, funciona super bem para algumas crianças, mas para outras nem tanto. Cabe aos pais observar as respostas do bebê. Há crianças que não tem o mesmo impulso de descobrir o mundo pela boca quanto outras. Elas pegam a comida, passam no rosto, sentem na mão, mas não necessariamente colocam na boca. Então, quando vou fazer a transição alimentar procuro ser bem flexível e encontrar os melhores caminhos para aquela família”.
Helena Waldner

As papinhas, o sal e o açúcar na alimentação saudável infantil
Assim, outro ponto muito discutido pelos órgãos de saúde em todo o mundo é a introdução do sal e do açúcar na alimentação infantil. A verdade é que a grande maioria dos alimentos prontos vendidos no mercado contém taxas exorbitantes de sal e açúcar (além de outros ingredientes nocivos), nada adequadas ao consumo infantil. Ou seja, precisamos urgente de uma reeducação alimentar e de atitudes como sociedade.
As papinhas prontas, por exemplo, estão no topo da lista do que se considera alimentação não saudável para bebês. Portanto, não precisamos nem citar a lista infinita daquilo que, curiosamente, chamamos de “alimentos infantis,” como balas, salgadinhos, doces, refrigerantes, sucos de caixinha, bolachas e afins.
Nesse sentido, em 2018, a OMS fez um alerta alerta contra o avanço da obesidade no Brasil e no mundo, que ameaça inverter a tendência do aumento da expectativa de vida. Além disso, consumir bebidas açucaradas, incluindo sucos de frutas, provoca uma tendência a abandonar os alimentos mais ricos em nutrientes.
No estudo apresentado, foram examinados cerca de 8 mil produtos cujo rótulo indicava serem apropriados para bebês de menos de seis meses. Segundo a instituição “um terço dos produtos examinados continham açúcar, suco de frutas concentrados ou outros adoçantes em sua composição, ingredientes que não deveriam ser adicionados aos alimentos para crianças. Entre 18% e 57% dos produtos continham mais de 30% de calorias procedentes de açúcares”
Segundo a doutora Helena, “a introdução de sal e açúcar na alimentação saudável infantil não deve ser feita antes dos 2 anos de idade. Isso porque o sistema digestório ainda está em formação e esses alimentos não são bem metabolizados, o que pode ocasionar doenças no decorrer dos anos, como a hipertensão, obesidade e diabetes”.

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