Dados cada vez mais alarmantes sobre o impacto da agricultura e criação de animais na mudança climática nos convida (bruscamente) a reduzir nosso consumo de carne. Ser vegano não está na moda como alguns tendem a achar. Ao contrário, tem sido encarado como medida de sobrevivência.
A expressão em inglês “the future is vegan” (o futuro é vegano) nunca fez tanto sentido. A comida que ingerimos e a forma como a produzimos têm gerado um impacto devastador no meio ambiente. Contudo, a boa notícia é que podemos fazer a nossa parte, assumindo responsabilidade pelo que nos cabe. Dessa forma, rever nossos hábitos de consumo seria de grande valia, ajudando a reduzir drasticamente a mudança climática a qual estamos submetidos.
Isso é o que sugere o último relatório da Nações Unidas, elaborado por mais de 100 cientistas de 52 países, e publicado pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Ele analisa como as práticas de uso da terra afetaram o planeta e apontou que o desmatamento, a agricultura e outras atividades humanas ameaçam a capacidade de cumprirmos o acordo climático de Paris de 2015, que se propôs a limitar o aumento da temperatura global a 1,5 graus Celsius.

Ser vegano é um caminho?
Uma mudança em nossos hábitos alimentares seria fundamental na mudança desse jogo. Reduzir o consumo de carne e adotar uma dieta à base de plantas aumentaria significativamente a capacidade do planeta de combater as mudanças climáticas.
Conforme Debra Roberts, co-presidente do Grupo de Trabalho II do IPCC, explica: “Algumas escolhas alimentares exigem mais terra e água e causam mais emissões de gases que retêm o calor do que outras”.
Segundo o Instituto para Educação da Água (IHE) da Unesco, para se produzir 1 quilo de carne bovina são necessários 25 quilos de grãos e mais de 15 mil litros de água. A verdade é que se destinássemos aos humanos todo alimento que damos aos animais criados para corte, alimentaríamos 3.5 bilhões de pessoas.

Não é só a carne, é nossa relação com a natureza
Mas o impacto não para por aí. Além do largo consumo de insumos, a criação de gado e cordeiro, por exemplo, exige pastos enormes, outrora cobertos por florestas. Isso quer dizer que, ao diminuirmos nosso consumo de carne, passaríamos a ter outra relação com o solo, reflorestando áreas de pasto e produção de grãos, deixando de usar tantos químicos na terra, adotando uma agricultura sustentável e ainda, diminuindo a quantidade de emissão de gases. Sem falar ainda, o que isso geraria de benefícios em termos de saúde humana
Os seres humanos não apenas precisam reduzir a quantidade de terra usada para produzir carne, mas também precisam usá-la com mais eficiência. Portanto, praticar agricultura sustentável é emergencial para garantir que a terra permaneça utilizável à medida que o planeta esquenta.

Mudança climática impacta nossa segurança alimentar
Em suma, o relatório levanta ainda sérias preocupações sobre como as mudanças climáticas prejudicarão a segurança alimentar. Partes da África, Ásia e América do Sul enfrentam esses problemas, como relatou Priyadarshi Shukla, co-presidente do Grupo de Trabalho III do IPCC.
“A segurança alimentar será cada vez mais afetada pelas mudanças climáticas futuras, devido à queda na produção - especialmente nos trópicos - aumento de preços, redução da qualidade dos nutrientes e interrupções na cadeia de suprimentos”.
Os países que provavelmente serão mais severamente impactados pelas mudanças climáticas serão os mais pobres. O curioso é que são eles que menos contribuíram para a mudança climática global. Ainda assim, os agricultores desses locais terão que se adaptar a padrões climáticos mais intensos, secas e inundações, além de diminuir o rendimento de suas terras.

O status da carne
Grande parte do mundo já come muito pouca carne, conforme observa Timothy Searchinger, pesquisador sênior do World Resources Institute. Apenas cerca de 25% do mundo come muita carne, e essa população se concentra em países ricos, como os Estados Unidos. Porém, à medida em que os países com baixo consumo de carne historicamente ficam mais ricos, eles passam a comer mais carne.
Desse modo, a moral da história para Searchinger: “os grandes comedores de carne precisam comer menos carne para equilibrar a balança”.
Para onde correr?
Assim, o relatório do IPCC mostra como diminuir o impacto da agricultura na mudança climática e como ajudar as áreas vulneráveis a continuar produzindo alimentos. Mas uma de suas características mais importantes é servir de apelo à ação, disseram especialistas.

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