O antropólogo e babalorixá Rodney William dá uma aula de resistência negra em seu novo livro e explica por A mais B o real significado de Apropriação Cultural. "A questão não é se branco pode ou não usar turbante. Pode, sim. Aliás, deve. O que não pode é esvaziá-lo de significado”.
Certamente, não foram poucas (e ainda são) as discussões acaloradas na internet sobre apropriação cultural. Porém, mesmo que desempenhem seu papel, dificilmente conseguem transpor a superficialidade do assunto que merece lentes de aumento, afinal de contas, falamos do respeito à cultura e memória de povos massacrados e que resistem até hoje.
Portanto, com lugar de fala e profundidade, o doutor em antropologia e babalorixá Rodney William, lançou no final do ano passado o livro “Apropriação Cultural”, o sétimo volume da coleção “Feminismos Plurais”, coordenado por Djamila Ribeiro.

Colonialismo e Apropriação Cultural
A obra relembra o processo de aculturação e aniquilamento dos costumes pelo qual passaram os povos escravizados. Porém, faz um contraponto com as práticas predatórias dos mercados capitalistas colonizadores atuais, que se valem dos traços culturais de um povo para lucrar. Ainda, esvaziam de significado esses símbolos de pertencimento tão preciosos, que merecem ser honrados e respeitados por toda a força que carregam em si. Por simbolizarem entre tantas coisas, o respeito ao outro, ao ser humano, à vida.

Segundo Pai Rodney, a intenção é sair do óbvio: “Apropriação cultural não é sobre branco não poder usar turbante, cantar samba ou jogar capoeira. É sobre uma estrutura de poder. Há um poder desde a colonização que delega aos dominantes definir quem é inferior”. Nesse contexto, ele se preocupa em expor toda a trama de subjugação tecida há tantos séculos e ainda vigente, mesmo que de forma disfarçada.
Pode ou Não Pode
O autor se preocupa em ir além das discussões rasas que procuram dizer o que pode e o que não pode, como o caso de uma garota com câncer que foi questionada sobre o fato de usar turbante. Para o antropólogo, discussões como essa, tiram o foco do que realmente importa, que é a violência sistêmica contra um povo e contra sua cultura.

Crédito: Tiago Celestino
Portanto, para ele, uma coisa é a indústria da moda se apropriar do turbante em um editorial de moda, tornando-a um mero acessório fashion. Outra, são pessoas brancas, dentro de ritos em terreiros de candomblé, usando turbantes. Sendo assim, Nesse caso, a vestimenta faz um link com um passado de resistência negra aos períodos de apagamento da cultura africana, de escravidão. “A questão não é se branco pode ou não usar turbante. Pode, sim. Aliás, deve. O que não pode é esvaziá-lo de significado”.
Cultura Negra Palatável
O livro discorre ainda sobre a sociedade de consumo e sua estratégia para tornar a cultura negra palatável, apagando os traços negros e elementos passíveis de rejeição, incluindo o que remete à herança religiosa. Foi assim que o acarajé passou a ser vendido em Salvador por igrejas neopentecostais com o nome de “bolinho de Jesus”. Foi necessária a intervenção judicial para reverter o caso, mas os estragos são profundos. Não se trata “apenas” de refutar elementos culturais, mas de tomar posse à força de lago que não lhe pertence, de fazer uso da dominação.


Ademais, “O acarajé, uma das mais famosas iguarias da culinária baiana, é a comida votiva de Iansã, orixá guerreira, senhora dos ventos e das tempestades. De tal forma que , tombado como patrimônio nacional, está entre as tantas outras receitas que saíram dos terreiros, e se espalharam pelo mundo. Além do acarajé, caruru, vatapá, mugunzá, feijoada e tantos outros pratos são, na verdade, comidas de santo, ou seja, fazem parte das oferendas dos devotos do candomblé aos orixás”. Sendo assim, essas são referências claras da cultura de um povo e figuram como símbolos da resistência negra. Portanto, não se pode contar essa história de outra forma.
Escravidão - A Grande Apropriação Cultural

Assim, “No caso do povo negro, a pior apropriação foi a escravidão. Primeiro se apropriaram dos corpos, depois das técnicas de trabalho na lavoura e nas minas, e seguiram se apossando das “obras” sem dar crédito aos autores, pois tudo que era negro pertencia aos senhores. Negro não tinha alma, negro não era gente e assim o racismo justificou a maior atrocidade da História.
Se é bom não pode ser preto”. Mas é bom? Então que deixe de ser preto. Eis a “lógica” da apropriação”.

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Com infos de: Carta Capital, Ceert.org e do livro “Apropriação Cultural”, de Rodney William.







