Mulheres da comunidade Tinguizal, em Goiás, criaram uma associação e também a marca de roupas Tuya Kalunga. As iniciativas buscam trazer empoderamento feminino e independência financeira para povo kalunga.
Essa história poderia começar 300 anos atrás, assim que, os negros fugiram da condição de escravos e se esconderam em terras remotas no norte de Goiás. Já que, homens e mulheres que não podiam mais dar conta dessa barbárie. Certamente, homens e mulheres que, sem saber, fundavam o que hoje é a maior comunidade quilombola remanescente do país. Contudo, o povo Kalunga, que até bem pouco tempo atrás não tinha tido contato com quase nada ou ninguém além de suas fronteiras, conta com cerca de 8 mil habitantes, divididos em 39 comunidades.
Nesse meio tempo, na Comunidade Tinguizal, em Monte Alegre de Goiás, que Maria Helena Serafim encontrou forças para honrar seus ancestrais e trazer empoderamento feminino para um grupo de mais de 30 mulheres kalungas. Logo após, ao terminar sua licenciatura em educação do campo, na Universidade de Brasília, se deparou com um grande dilema: continuar na cidade grande ou voltar para sua comunidade.
Ouvindo o Coração

Maria Helena entendia por fim que não havia nada para ela em Tinguizal. Que ali ela não teria como sobreviver. Um dia, chorando sem saber o que fazer, pensou em sua ancestralidade e se questionou:
“Como é que eles puderam sobreviver tantos séculos naquele local e eu não conseguiria? Onde estou falhando? O que os mais velhos faziam para sobreviver?”
Então, se deu conta que em todo esse tempo algo permanecia intacto: todos se vestiam e comiam de forma autossustentável.Ou seja, no que se refere às vestimentas, plantava-se algodão no quintal, fazia-se a linha e tecia-se o pano para fazer as roupas. Ao passo que, Trocava-se farinha para comprar cortes de chita e ornamentar as peças de algodão cru com cores vivas. “Porque o povo kalunga gosta de usar cores fortes, coloridas, com estampas de flores e aves que lembram o Cerrado. É uma das identidades kalungas’. Inegavelmente, herança da ancestralidade africana.
Abrindo-se para o novo
Posteriormente, decidiu voltar à comunidade e pesquisar mais sobre o tema. E principalmente, Entender o que as mulheres pensavam a respeito, se havia alguma forma de gerar renda para além das fronteiras de lá. “Percebi que essa seria uma forma incrível de trazer empoderamento feminino, aumentar a auto-estima das mulheres. Resgatar saberes e fazeres, unir e tirar meu povo kalunga da situação de vulnerabilidade econômica”.

Surpreendentemente, nesse estudo, entenderam que o melhor seria se organizar para buscar recursos. Fundaram então, a Associação de Mulheres Quilombolas Kalungas, o que lhes possibilitou ganhar recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) para compra de máquinas de costura e formação específica para 25 mulheres. Portanto, junto à Associação, nascia a marca de roupas Tuya Kalunga, representando o reconhecimento da moda quilombola.
Em Busca da Casa Própria
Enquanto a verba para realizarem o sonho de Maria Helena - e de tantas outras mulheres motivadas por ela – saiu, um impeditivo ainda não possibilitou que dessem passos mais largos com o projeto. com o propósito de contrapartida que o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) pediu para liberar o recurso é que elas tenham um local próprio para trabalharem como Associação.

“Nesse momento estamos angariando fundos para a construção de um barracão aqui na comunidade para receber os maquinários. Antes cada uma costurava na mão em sua casa, agora precisamos do nosso espaço, para aprender com as mais velhas e ensinar as mais novas. Assim que o povo kalunga ensina os mais novos, na prática. Os adultos fazem, as crianças olham e aprendem.”
Resta da Ancestralidade e Empoderamento Feminino
“Pelo pouco que a Tuya fez, já fez muito. As mulheres daqui são a base da sobrevivência e resistência do povo kalunga. São elas que carregam os saberes e fazeres. São quem lutam para permanecer na comunidade. Não é apenas fazer roupa, é resgatar uma história e construir outra nova. É fazer sentido e empoderar as mulheres kalungas na luta pela sobrevivência, pela resistência, pela resiliência.”


Hoje, com o orçamento ainda muito curto, a Tuya vende uma peça para poder confeccionar a outra. Mas as mulheres acreditam que essa escassez tem seus dias contados. “Precisamos dar passos largos. Não queremos que os jovens saiam daqui para poder sobreviver. A Tuya é nossa esperança para que possamos fortalecer toda essa rede de mulheres, de famílias, do povo kalunga.”
Como Ajudar
É possível fazer doações para o projeto de empoderamento feminino das mulheres kalungas através de uma conta bancária. Para isso, escreva para [email protected] ou por mensagens em suas mídias sociais @tuyakalunga.
>> Há cerca de 1.500 famílias espalhadas por ao menos 39 comunidades quilombolas. Eles ocupam uma área de 250 mil hectares entre os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás.
>> Emival Caiado, primo do atual governador do estado, Ronaldo Caiado (DEM), tenta há 20 anos construir uma hidrelétrica onde hoje vivem muitas dessas famílias. Esse, infelizmente, não é o único projeto que visa se apropriar das áreas quilombolas.

Veja também como Marcelo Rosenbaum conseguiu resgatar saberes ancestrais, utilizar em seu trabalho e atrair o olhar do Brasil e do Mundo para comunidades esquecidas.







