Aos homens não foi ensinado - e nem permitido - entrar em contato com sua vulnerabilidade. Acessar o sagrado masculino é tomar conhecimento dessa parte negada, suprimida. É ganhar o direito de se expressar e romper com as amarras do patriarcado.

Escrever esse texto tem sido um desafio. Faz dias que leio, vejo vídeos, converso e desconverso comigo mesma, penso em alternativas e postergo. Concluo que preciso chamar um homem para poder falar sobre sagrado masculino. Recordo de uma professora que tive dizendo para escrevermos sobre aquilo que temos familiaridade. Depois me lembro que como todos, sou metade energia feminina e a outra metade, masculina. Hei de saber, nas profundezas de meu ser, algo sobre esse masculino sagrado. Então vamos lá:
Primeiramente, somos todos sagrados, eu e você. Certamente, a vida em si é fruto do mistério do sagrado para o qual damos muitos nomes. Assim sendo, A sacralidade de ser, de respirar, de amar, de viver. Portanto, tudo em nós é um constante ritual que nos passa desapercebido todos os dias. Nesse sentido, se não percebemos nosso próprio respirar, deixamos também de notar muitas outras coisas em nós.
Restando Quem Somos
Lendo um texto do escritor Gustavo Tanaka, ganhei coragem de arriscar algumas palavras por aqui. Tanaka disse assim:
“Eu acesso o Sagrado Masculino a partir da minha vulnerabilidade.
Eu acesso o Masculino a partir do meu Feminino”
Gustavo Tanaka
Surpreendentemente, a partir desse insight, algo tão simples e ainda tão distante da maioria de nós, instantaneamente dei passos largos em direção ao que estava me assustando tanto: o sagrado masculino.
Por isso, acessar nossa vulnerabilidade é de longe a coisa mais difícil que já fiz – e acredito que assim o seja para a maioria de nós. Desde a infância, vamos aprendendo a nos desconectar daquilo que somos e da fragilidade inerente à condição humana. Todavia, criamos capas, máscaras e todo tipo de defesa para nos proteger do mundo. Então Aos homens, o legado do patriarcado deixou uma ordem irrevogável: a eles não será permitido chorar, ou sentir, ou expressar seu mundo interior. Daí a urgência de voltar-se, antes de mais nada, para dentro em busca de si, de autoconhecimento. por conseguinte, a urgência de buscar o sagrado masculino.

O Legado do Patriarcado
O documentário “O silêncio dos homens” escutou mais de 40 mil pessoas comprovando de fato, que esse fechamento emocional tem atuado como uma camisa de força entre aqueles do gênero masculino. Conforme o filme, 7 em cada 10 homens não falam sobre seus maiores medos e dúvidas com os amigos, por exemplo. Mas esse fechamento, esse silêncio, está na raiz de vários outros problemas, desde a violência doméstica até as altíssimas taxas de suicídio. Portanto, esse fechamento é uma capa que separa os homens do autoconhecimento.

O diagnóstico expresso por Guilherme Nascimento Valadares, editor-chefe do PapodeHomem (produtores e idealizadores do documentário), em suma, não podia ser mais didático. “Silêncio aqui tem sentido amplo. É emocional, verbal, social, tanto individual como coletivo. Estamos falando de uma rigidez psicológica, que se torna um vulcão quando associada aos “mandamentos da masculinidade”: ser bem-sucedido profissionalmente, não agir de modos que pareçam femininos, não levar desaforo para casa, dar em cima das mulheres sempre que possível, não expressar emoções (…). A maioria de nós foi treinado para sufocar o que sente, aguentar o tranco e peitar a vida, como machos”.
Fazendo Empatia
Quando a fragilidade do masculino é escancarada dessa forma, fazer empatia fica muito mais fácil. Enquanto mulheres militam e se expressam por meio do feminismo reivindicando o que nos foi roubado há tanto tempo – o direito à liberdade de ser; de sermos nós mesmas; o direito de termos os mesmos direitos que o sexo oposto -, homens ainda juntam forças para dar esse grito oprimido. É verdade que, nós mulheres, temos sido massacradas, humilhadas e desrespeitadas por séculos a fio. Mas se a gente colocar uma lente de aumento na história, podemos ver que esse massacre se deu com o feminino, em nós mulheres, mas também nós homens. Em nós humanidade e também no planeta Terra.
Parece distante? Então vamos lá:
Como disse lá em cima, somos 50% masculino e 50% feminino. Duas forças complementares, Yin e Yang, como quiser. O masculino é nossa energia de ação, de construção, nossa razão. Já o feminino atua na receptividade, na gestação, na intuição. São valores inerentes a todos nós, mas muitas vezes em desequilíbrio. Como sociedade, escolhemos colocar a razão acima da intuição. Passamos a acreditar que temos controle do mistério da vida. Transformamos a natureza em commodities. Sonegamos o feminino.
Acessar o Sagrado Masculino como caminho para gritar “Chega”, e mudar paradigmas.
O Caminho para o sagrado masculino é o Mesmo
A verdade é que estamos todos nós, homens e mulheres, em busca de quem somos de fato. Querendo curar essas dores tão antigas que nos fazem reféns de nós mesmos. Os frutos amargos desse sistema que criamos para viver em sociedade foram colhidos por todos. Já é hora de fazer diferente.
Como disse Tanaka no texto que tanto me sensibilizou e me deu força para escrever esse daqui:
“Estamos juntos, como sempre estivemos.
Ombro a ombro nessa jornada em busca do nosso espaço.
Em busca de nós mesmos.
E de criar aqui na Terra o lugar que queremos viver”.
GUSTAVO TANAKA







