Novas tendências globais parecem estar mascarando uma triste realidade social gerada pelo sistema capitalista: trabalhamos demais e recebemos de menos. A falta de acesso à direitos básicos como moradia, alimentação e lazer têm sido maquiadas por novas práticas que, a princípio, parecem super modernas mas que podem sugerir uma aceitação da pobreza.
Não há como negar que nossa sociedade vem atravessando uma enorme crise.
Antigos modelos são colocados em xeque e novas formas de interagir, produzir, atuar e viver nesse mundo, se fazendo necessárias e emergindo constantemente. Nesse novo cenário, colaboratividade, criatividade, coletividade (entre outros) são termos que ganham força e propõe a união sem, necessariamente, reprimir a individualidade de cada um. Ao contrário, cada vez mais, projetos e expressões autorais se fazem presentes.
Isso mostra que precisaremos da contribuição do que cada um traz consigo de mais precioso para poder fazer diferente e transformar o nosso mundo.
Nesse pipocar de novas ideias e iniciativas, há quem questione se estamos mesmo pegando o “caminho certo”. Por outro lado, alguns se perguntam se estamos apenas transformando a desordem global em algo moderno e descolado. Essa segunda visão inclui a aceitação da pobreza de uma forma maquiada.
A latente e crescente desigualdade social parece ser um buraco sem fundo diante do capitalismo vigente. Contudo, tem sido driblada a partir de novos conceitos que podem propor até buscar comida no lixo para se tornar uma pessoa politizada. Bem como boicotar o consumo e produzir menos impacto ambiental.
Listamos aqui algumas das novas ordens sociais, tendências que normalizam alguns dos pontos mais sensíveis da nossa sociedade, tornando a aceitação da pobreza algo cool.
Freeganismo

O estilo de vida começou a ganhar força nos anos 90. A junção dos termos em inglês vegan (prática de não consumir nada de origem animal) e free (que tem a ver com liberdade ou ausência de custos em inglês) deu origem a esse movimento que busca resistir ao consumo para além da alimentação: também se relaciona à ocupação de moradias em prédios em desuso, prática de voluntariado ao invés de trabalho remunerado e sim, a prática de pedir restos de comida que serão descartadas ou até mesmo, vasculhar o lixo em busca de alimentos ainda próprios para consumo.
O freeganismo tornou-se comum em países da Europa e nos Estados Unidos, abarcando muitos jovens mochileiros ou residentes. No entanto, encontraria barreiras no Brasil, onde o judiciário impõe uma punição a donos de restaurantes e mercados caso doem alimentos e estes causem algum tipo de intoxicação alimentar ao donatário. Com isso, há um desperdício diário de cerca de 20 toneladas de alimentos por dia em nosso país.
Como dizíamos, as problemáticas que nossos sistemas econômico e social têm criado, deixam uma série de lacunas que fazem com que a fome e a desigualdade social se perpetuem, gerando questões ainda mais complexas do que um grupo de pessoas que conta vantagem por não precisa de dinheiro para viver, um jeito duvidoso de aceitação da pobreza. Gera, entre outras coisas, crenças errôneas de que precisamos escravizar a natureza, desmatando nossas florestas, plantando sementes transgênicas e chacinando animais sob o pretexto de saciar a fome no mundo. Fechar os olhos para todo o ciclo que envolve a produção e distribuição de comida no mundo talvez seja um dos buracos mais fundos que temos cavado como humanidade.
Enquanto a pobreza é romantizada pelos jovens, grandes indústrias internacionais seguem monopolizando o uso dos recursos naturais e acumulando riquezas aos custos da nossa própria existência nesse planeta. Será que esse caminho gera mesmo bons frutos?
Aceitação da pobreza pelo Nesting

O termo em inglês significa algo como “ficar aninhado”, mas nesse caso pode ser traduzido como ficar em casa. Médicos e cientistas garantem que passar o final de semana em casa fazendo nada diminui a ansiedade e os níveis de estresse. Como se isso não fosse perfeito, ainda te faz economizar no fim do mês, já que evita que gaste dinheiro por aí. Mas talvez tenhamos esquecido de olhar para a causa de tanto estresse, tanta ansiedade e tanta falta de dinheiro. Ficar em casa jogado no sofá vendo televisão não parece ser a cura para nenhuma dessas questões.
Um site português condena essa prática de aceitação da pobreza questionando que a falta de dinheiro para gozar do tempo de lazer passou a ser vendida como uma maneira incrível de combater a ansiedade. Realmente é de se pensar o porque trabalhamos tantas horas por dia. geralmente em empregos que não nos fazem feliz. Ainda por cima, sem ter grana para poder ir para perto da natureza descansar de verdade, fazer uma prática física que nos relaxe e renove as energias, se dar ao direito de receber uma massagem ou alguma terapia, fazer um curso que alimente nossa alma. Enfim, escolher usar o tempo livre para algo que nos preencha e faça bem verdadeiramente.
Habitação Compartilhada

Na mesma linha de pensamento do item anterior, não ter dinheiro suficiente que garantam direitos básicos como moradia, tem feito com que muitas pessoas aluguem quartos e até mesmo o sofá de suas casas para pagar o aluguel ou complementar a renda.
A bandeira de que essa prática é super cool faz com que deixemos de ajustar o foco para a realidade vivida em grandes centros urbanos onde, mesmo trabalhando mais horas do que a saúde nos permite, não é possível dar conta da própria subsistência.
Partilhar Salário e Trabalho

Nesse sentido, outra prática tem sido difundida depois da criação de aplicativos como Uber, UberEats e afins. Como acontece: em um mesmo perfil cadastrado ao app mais de uma pessoa assume o serviço, ampliando a quantidade de horas trabalhadas e fazendo com que sua conta suba na avaliação.
Em suma, muitos destes trabalhadores têm horários que vão desde às 9h da manhã até o dia seguinte, sem um período mínimo de descanso diário.
Além disso, não há nenhum tipo de vínculo trabalhista que garanta um período de férias remuneradas ou mesmo dias de repouso por conta de uma doença.
Mas narrativa é outra: a “uberização” da economia é um fenômeno que permite que trabalhadores não tenham que trabalhar em tempo integral na mesma atividade. E, portanto, e mantenham a “flexibilidade” para assumir outras ocupações.
Portanto, a grande questão na busca por novos caminhos é não perder de foco a realidade. A aceitação da pobreza e da precariedade, essa normalização dos fatos, é uma arma muito perigosa, pela sutileza com que se apresenta.
Dessa maneira, tomá-la como uma opção moderna de viver a vida, que de forma individual resolveria todas as doenças da nossa sociedade - do consumismo desenfreado aos perigos ambientais -, não transforma a realidade caótica que nos encontramos como sociedade e humanidade. Pior ainda, deixa de evidenciar os graves problemas que temos atravessado, há tempos. Assunto intenso que vale debate e busca por soluções mais efetivas.
Com infos de: AbrilAbril.pt; Super Interessante, Gazeta do Povo, Freegan.info e Dn.pt







